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A REALIDADE DO SONHO -
(La realtà del sogno) - 1914 |
Tudo o que ele falava
parecia ter o mesmo valor incontestável de sua beleza; como se,
por não poder por em dúvida o fato de ser um homem belíssimo,
belíssimo em tudo, não pudesse igualmente ser contestado em nada.
E não entendia nada,
absolutamente nada do que estava se passando com ela!
Ao ouvir as
interpretações que, com tanta segurança, ele dava pra seus
movimentos e até, às vezes, para algumas injustificadas
antipatias ou certos sentimentos, vinha-lhe a tentação de
unhá-lo, esbofeteá-lo, morde-lo.
Mesmo porque, com toda
aquela frieza e segurança, aquele orgulho de jovem bonito, ele
se via desamparado em certos momentos, e então se achegava a ela,
porque precisava dela. Tímido, humilde,suplicante, o que também
a enfastiava nesses momentos, de modo que, nessas mesmas
ocasiões, ela se sentia irritada; por isso, mesmo se inclinando
na ceder, se endurecia, empacava; e a lembrança de qualquer
enlevo, envenenada no nascedouro pela irritação, logo se
transformava em rancor.
Ele argumentava que o
incômodo e o fastio que ela dizia sentir diante de todos os
homens era uma fixação.
- Você sente isso,
querida, porque pensa nisso - obstinava-se a repetir.
- Eu penso, querido,
porque sinto!- rebatia ela- Fixação nada! Simplesmente sinto. É
assim. E devo agradecer a meu pai, pela bela educação que me deu!
Quer duvidar disso também?
Ah, quanto a esse
ponto não havia o que objetar. Ele mesmo experimentara a
situação durante o noivado.
Nos quatro meses que antecederam o
casamento, lá, na cidadezinha natal, ele foi proibido não só de
lhe tocar a mão, mas também de trocar duas palavrinhas em voz
baixa.
O pai, mais ciumento
do que um tigre, inculcara-lhe desde criança um verdadeiro
horror os homens, nunca aceitara que nenhum entrasse em casa;
todas as janelas estavam sempre fechadas; e as raríssimas vezes
em que a levara para fora, obrigara-a a andar de cabeça baixa
como uma freira, quase contando as pedras do calçamento.
Não era de admirar que
agora, na presença de um homem, ela sentisse embaraço e não
pudesse olhar nos olhos de ninguém, nem soubesse falar ou se
mover.
É verdade que havia
seis nos ela se libertara do pesadelo daquele feroz ciúme
paterno; via gente em casa, na rua; no entanto... Certamente não
era mais o terror pueril de antes, mas o embaraço estava lá. Por
mais que se esforçassem, seus olhos não eram capazes de
sustentar o olhar de ninguém; a língua, ao falar, se embolava na
boca, e, de repente, sem sabe por que, ficava com o rosto em
brasa, de modo que todos podiam jurar que ela pensava quem sabe
o quê, quando de fato não pensava nada; em suma, via-se
condenada ao ridículo, a passar por tola, estúpida e não se
conformava. Inútil insistir. Graças ao pai, precisava ficar
trancada, sem ver ninguém, pelo menos para não sentir o desgosto
do embaraço estúpido e ridículo que a dominava.
Os amigos, os melhores,
os que ele mais tinha em conta e gostaria de conservar como
ornamentos de sua casa, do pequeno mundo que seis anos antes, ao
se casar, ele esperava constituir à sua volta, haviam se
afastado um a um.
Pudera! Apareciam em
casa, perguntavam:
- E sua mulher?
Sua mulher escapara
correndo ao primeiro toque da campainha. Fingia sair para
chamá-la, e ia realmente; apresentava-se a ela com a face aflita,
as mãos abertas, mesmo sabendo que seria inútil, que a mulher o
fulminaria com olhos acesos de raiva e gritaria entre os dentes:
”Estúpido! ”; ele dava as costas, retornava à sala -Deus sabe
como se sentia por dentro- s anunciava sorrindo por fora: - Tenha paciência, meu caro, ela não está bem: está de cama. Uma,
duas, três vezes; no final, claro, se cansaram. Podia
censurá-los? Restavam ainda dois ou três, os mais f iéis ou
corajosos. E esses, pelo menos esses ele queria defender,
especialmente um, o mais inteligente, culto de verdade e avesso
ao pedant ismo, talvez até por certa ostentação; jornalista
finíssimo, enfim, um amigo precioso.
Algumas vezes, porém,
a mulher apareceu para alguns desses poucos amigos que restaram:
ou porque foi tomada de surpresa, ou porque, num momento bom, se
rendera às súplicas do marido. E, pasmem, não é verdade que
tenha feito um papelão; ao contrário!
- Quando você não
pensa nisso, está vendo... quando se entrega à sua natureza...
você é cheia de graça...
- Obrigada!
- É inteligente. ..
- Obrigada!
- E não tem nada de t
ímida, juro! Desculpe-me, mas por que eu gostaria de deixá-la
numa sensação desconfortável? Você fala com desenvoltura, sim,
às vezes até demais... e é muito, muito divertida, garanto! Fica
toda acesa e os olhos. .. quem disse que não sabem olhar?! Eles
soltam faísca querida... E também diz coisas ousadas, é verdade...
Está espantada? Não que sejam incorretas... mas ousadas para uma
mulher; com desembaraço, desenvoltura, enfim, com espírito, juro!
Acalorava-se nos
elogios ao notar que ela, mesmo protestando não acreditar em
nada, no fundo sent ia prazer, enrubesci, não sabia se sorria ou
cerrava o cenho.
- É exatamente assim,
assim mesmo, acredite: não passa de fixação sua...
Ele deveria pelo menos
se preocupar com o fato de ela não ter protestado diante das cem
vezes repetidas “fixação”, acolhendo os elogios sobre sua fala
franca, desenvolta e até ousada com evidente regozijo.
Quando e com quem ela
falara assim?
Poucos dias antes, com
o amigo “precioso”; com aquele que ela achava, naturalmente, o
mais antipático de todos. É verdade que ela reconhecia a
injustiça de suas antipatias, acusando de maior antipatia
justamente aqueles homens que a deixavam mais embaraçada.
Mas agora a alegria
por ter conseguido falar diante desse amigo, e até com
impertinência, derivava do fato de que este (certamente para
espicaçá-la), durante uma longa discussão sobre o eterno tema da
honestidade das mulheres, tinha ousado sustentar que pudor
excessivo denuncia infalivelmente um temperamento sensual, de
modo que é preciso desconfiar de uma mulher que enrubesce por
qualquer coisa, que não ousa erguer os olhos porque teme ver em
cada patê um atentado ao próprio pudor, e em cada palavra, cada
olhar, uma ameaça a sua honest idade. Isso quer dizer que essa
mulher é obcecada por imagens tentadoras, tem medo de se deparar
com elas a todo instante, perturba-se com a simples idéia.
Claro que sim! Ao
passo que outra, tranqüila nas sensações, não tem esses pudores
e pode falar sem se perturbar, inclusive de intimidades amorosas,
sem pensar que possa haver algo ruim em uma... sei lá, camisa
mais decotada, numa meia furada, numa saia que deixe entrever
formas um pouco acima do joelho.
Com isso ele
obviamente não queria dizer que uma mulher, para não passar por
sensual, tivesse que ser despudorada, debochada, ostentando
aquilo que não se deve deixar transparecer. Isso seria um
paradoxo. Ele falava do pudor. E o pudor, para ele, era a
vingança da insinceridade. Não que não fosse sincero
pessoalmente. Ao contrário, era sinceríssimo, mas como expressão
de sensualidade. Insincera é a mulher que pretende sua
sensualidade apresentando como prova o vermelho do pudor nas
faces. Essa mulher pode ser insincera mesmo sem querer, mesmo
sem saber. Porque nada é mais complicado do que a sinceridade.
Todos fingimos espontaneamente, não tanto para os out ros, mas
para nós mesmos; sempre que pensamos de nós o que nos agrada
pensar, vendo-nos não como somos na realidade, mas como
presumimos que somos segundo a construção ideal que fizemos de
nós mesmos. Assim pode ocorrer que uma mulher mesmo sendo
sensualíssima sem o sabem, acredite sinceramente ser casta e
sinta repulsa e desprezo por sua sensualidade, pelo mero fato de
enrubescer por nada. Esse enrubescer por nada, que é por si só
expressão sinceríssima da sua real sensualidade, é, no entanto
assumido como prova da suposta castidade; e sendo assim assumido,
torna-se naturalmente insincero.
- Vamos, minha senhora - concluíra noites at rás aquele amigo precioso
-, a mulher, por
natureza (salvo as exceções, claro), é toda sentidos. Basta
saber tomála, excitá-la e domina-la. As muito pudicas nem
precisam ser excitadas, se excitam e incendeiam sozinhas, a um
simples toque.
Ela em nenhum momento
duvidara de que toda aquela fala se referia a ela; e, tão logo o
amigo partiu, voltou-se ferozmente contra o marido, que durante
a longa discussão não fizera mais que sorrir como um cretino a
aprovar.
- Insultou-me de todos
os modos por duas horas, e você, em vez de me defender, apenas
sorriu , aprovou, dando a entender que concordava com ele,
porque você meu marido, você, ah, você podia saber...
- O quê?- exclamou ele,
estupefato. -Você está delirando... Eu? Que você seja sensual?
Mas que história é essa? Ele falava da mulher em geral; o que
você tem a ver com isso? Se ele tivesse suspeitado de que você
pudesse tomar para si o que ele dizia, não teria dado um pio! De
resto, me desculpe, mas como eu podia imaginar isso se, com ele,
você não demonstrou ser aquela mulher pudica que estava em
questão? Nem sequer enrubesceu; defendeu com ímpeto e fervor sua
opinião. E eu sorri porque estava gostando, porque via ali a
prova de tudo que sempre disse e afirmei, ou seja, quando você
não pensa, logo esquece a timidez e o embaraço; afinal, esse
embaraço não passa de fixação. O que isso tem a ver com o pudor
de que ele falava?
Não encontrava
resposta às justificativas do marido. Fechara-se em copas,
sombria, remoendo o motivo por que se sentira tão intimamente
ferida pela fala do sujeito. Não era pudor; não, não,
absolutamente, não era pudor o que ela sentia, aquele pudor
abjeto de que o out ro falava; era embaraço, embaraço, embaraço;
mas é claro que um sujeito maldoso como aquele podia tomar
aquele embaraço por pudor e, assim, pensar fosse ela uma... uma
delas.
No entanto, se ela de
fato não se mostrara embaraçada como dizia o marido, por dentro
o embaraço existia; podia até superá-lo, esforçar-se para não
demonstralo, mas o sentia. Ora, se o marido negava seu embaraço,
isso queria dizer que ele não percebia nada. Portanto nem sequer
notaria se esse embaraço fosse outra coisa, isto é, o tal pudor
de que o outro falara.
Seria possível? Ah,
Deus, não! Só de pensar lhe dava nojo e horror.
Todavia...
A revelação ocorreu
num sonho.
Começou como um
desafio - o sonho -, como uma prova a que ela era submetida por
aquele homem odioso, logo em seguida à discussão ocorrida três
noites antes.
Ela deveria demonstrar
a ele que não enrubesceria por nada; que ele podia fazer com ela
o que quisesse, sem a deixar minimamente perturbada nem confusa.
Então ele iniciava a
prova com fria audácia. Primeiro passava a mão suavemente no seu
rosto. Ao toque aquela mão, ela fazia um esforço violento para
esconder o arrepio que a percorria inteira, sem velar a mirada e
mantendo os olhos fixos e impassíveis, com um tênue sorriso nos
lábios. Depois ele aproximava os dedos da sua boca,dobrava-lhe
delicadamente o lábio inferior e mergulhava ali, na cavidade
úmida, um beijo quente, longo, de infinita doçura. Ela cerrava
os dentes; enrijecia-se toda para dominar o t remor, o frêmito
do corpo; e então ele começava lentamente a lhe desnudar o seio
e... O que lhe havia de mal? Não, não, nada de mal. Mas. .. oh,
Deus, não... ele se demorava perfidamente nas carícias. .. não,
não. .. é demais... e... Vencida, perdida, primeiramente sem
querer,ela começava a ceder,não por força dele, não, mas pelo
langor espasmódico de seu próprio corpo; até que...
Ah! Pulou do sonho em
convulsão, desfeita, trêmula, cheia de repulsa e de horror.
Fixou o marido que
dormia a seu lado, alheio; e a vergonha que sentia de si
transformou-se subitamente em ojeriza a ele, como se ele fosse à
razão da ignomínia que ainda lhe provocava prazer e asco; ele,
ele pela estúpida obstinação de receber em casa esses amigos.
Pronto: ela o traíra
em sonho, t raíra, e não sentia remorso, não, mas raiva de si,
por ter sido vencida; e rancor, rancor por ele, que em seis anos
de casamento nunca soubera faze-la sentir o que experimentara
ali, em sonho, com um outro.
Ah, toda sentidos...
Então era verdade?
Não, não. A culpa era
dele, do marido que, não querendo acreditar no seu embaraço,
forçava-a a se dobrar, a cometer uma violência contra a sua
natureza, expondo-a as provas e aos desafios de que brotara o
sonho. Como resistir a tal prova? Ele quis assim, o marido. Este
era o castigo. E ela teria gozado se, com alegria maligna que
sentia ao pensar no castigo dele, pudesse se desfazer da
vergonha que sentia por si.
E agora?
O confronto aconteceu
na tarde do dia seguinte, depois de um duro silêncio contra
qualquer pergunta do marido, que insistia em saber por que ela
estava assim e o que havia ocorrido.
Foi durante o anúncio
da habitual visita do amigo precioso. Ao ouvir na saleta de
entrada a voz dele,ela estremeceu de repente,
contrafeita. Uma raiva
furiosa escapou-lhe dos olhos. Saltou sobre o marido e, tremendo
dos pés a cabeça, intimou-o a não receber aquele homem.
- Não quero! Não quero!
Faça-o ir embora!
De início, mais do que
espanto, ele sentiu quase assombro diante da reação furiosa. Não
podendo entender a razão de tanta repulsa, quando aliás já
acreditava que o amigo, por tudo que conversaram depois da
discussão, tivesse caído nas graças da mulher, irritou-se
ferozmente com aquela intimidação absurda e peremptória.
- Mas você está maluca
ou quer me deixar doido?! Então preciso perder realmente todos
os amigos por causa de sua estúpida loucura?
E, desvencilhando-se
dela, que se agarrava a ele, ordenou à criada que fizesse o
senhor entrar.
Ela correu e foi se
esconder no quarto ao lado, lançando-lhe , antes de sumir atrás
da porta, um olhar de ódio e desprezo.
Desabou na poltrona
como se as pernas de repente tivessem sido quebradas, mas todo o
sangue lhe ardia pelas veias, todo o ser se revirava por dentro,
mas num abandono desesperado, ouvindo através da porta fechada
as expressões de alegre acolhida que o marido dedicava ao outro,
com quem ela, na noite anterior, em sonho, o havia t raído. E a
voz daquele homem... oh, Deus... as mãos, as mãos daquele homem...
De repente, enquanto
se enrodilhava toda na poltrona, apertando braços e seios com os
dedos tensos, deu um grito e desabou no chão, tomada por uma
terrível crise de nervos, um verdadeiro ataque de loucura.
Os dois correram para
o quarto; pararam por um instante aterrorizados diante dela, que
se contorcia no chão como uma serpente, gemendo e ululando; o
marido tentou ergue-la; o amigo se apressou em ajudá-lo.Melhor
se nunca o tivesse feito!
Sentindo-se tocadas
tocada por aquelas mãos, o corpo dela, mergulhado na
inconsciência e no absoluto domínio dos sentidos ainda ativos,
começou a tremer por inteiro, um tremor voluptuoso; e, sob os
olhos do marido, agarrou-se àquele homem, exigindo-lhe
ansiosamente, com uma urgência medonha, as carícias frenéticas
do sonho.
Horrorizado, o marido
a arrancou dos braços do amigo; ela gritou,debateu-se, depois se
atirou sobre ele quase exânime e foi posta na cama.
Os dois homens se
olharam estarrecidos, sem saber o que pensar ou o que dizer.
A inocência era tão
evidente no espanto doloroso do amigo que o marido não foi capaz
de nenhuma suspeita. Pediu-lhe que saísse do quarto; disse que
desde a manhã a mulher estava perturbada, num estado de estranha
alteração nervosa; acompanhou-o até a porta, desculpando-se por
dispensá-lo após um incidente tão doloroso e imprevisto; e
voltou correndo para o quarto dela.
Encontrou-a sobre a
cama, já consciente, encolhida como uma fera, com os olhos
vidrados, todos os membros tremiam com espasmos violentos, como
se tivesse frio.
Quando ele se
aproximou, turvado, e lhe perguntou o que havia acontecido, ela
o rechaçou com ambas as mãos e, de dentes cerrados, com uma
volúpia devastadora, jogou-lhe na cara a confissão de traição.
Dizia com um sorriso cruel, convulsivo, contraindo-se toda e
espalmando as mãos:
- No sonho! ... No
sonho! ...
E não poupou nenhum
detalhe. O beijo dentro dos lábios. .. a carícia nos seios.. .
Com pérfida certeza de que ele, mesmo sentindo como ela que a
traição era uma realidade e, como tal, irrevogável e irreparável,
porque consumida e degustada até o fundo, não podia acusá-la de
culpa. Seu corpo- ele o podia espancar, ferir, arrebentar, mas
seu corpo tinha sido de um outro, na inconsciência do sonho.
Para o outro não havia de fato a traição; mas a traição ocorrera
e permanecia ali, ali, para ela, no seu corpo que gozava, uma
realidade.
De quem seria a culpa?
E o que ele poderia fazer?
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