D'Andrea : Aqui está, meus senhores.
Eu devo instruir este processo. Nada de mais
iníquo que este processo. Iníquo, porque contém a mais desumana injustiça contra
a
qual um pobre diabo tenta rebelar-se, sem nenhuma probabilidade de salvar-se. Há
uma
vítima aqui, que mal pode pegar-se com um. Quis, logo neste processo, pegar-se
com
dois. Com os dois primeiros que lhe apareceram, e sim, senhores, a justiça deve
lhe ser
implacável, implacável, sem volta, ratificando assim, ferozmente, a iniqüidade
de que
este pobre homem é vítima.
Primeiro juiz : Mas que processo é esse?
D'Andrea : Aquele aberto por Rosario Chiàrchiaro.
Num segundo, ao ouvir o nome, os três juízes, como Marranca, dão um salto para
trás,
fazendo um gesto de esconjuro, assustados, gritando.
Juízes : Pela Madona Santíssima! Isola! Quer ficar quieto!
D'Andrea : Pronto, viram? E deveriam justamente os senhores fazer justiça a este
pobre homem!
Primeiro juiz : Mas que justiça?! Trata-se de um louco!
D'Andrea : Um desgraçado!
Segundo juiz : Pode ser até um desgraçado... Mas, desculpe, é definitivamente um
louco!
Move uma ação por difamação contra o filho do prefeito, nada menos, e
ainda...
D'Andrea : ... Contra o assessor Fazio!
Terceiro juiz : Por difamação?
Primeiro juiz : É isso mesmo, compreende? Porque, segundo relata, surpreendeu
os dois fazendo um gesto de esconjuro, quando passava por eles.
Segundo juiz : Mas como difamação se em toda cidade, há pelo menos dois anos,
está difundidíssima sua imensa fama de pé-frio?
D'Andrea : E muitas testemunhas podem vir ao tribunal e jurar que em tantas e
tantas ocasiões ele deu sinais de conhecer bem esta sua fama maldita, reagindo
com
protestos furiosos!
Primeiro juiz : Ah, veja? E você mesmo o diz!
Segundo juiz : Ora, como condenar, em sã consciência, o filho do prefeito e o
assessor Fazio por difamação por terem feito algo que há tempos costumam fazer
todos,
abertamente?
D'Andrea : Inclusive os senhores...
Juízes : Claro! É terrível, sabia? Deus nos livre e guarde!
D'Andrea : E depois ficam espantados,
meus amigos, que eu traga comigo um
pintassilgo? Mesmo assim, o trago, os senhores sabem, por que estou sozinho há
um
ano. Era de minha mãe esse passarinho. Para mim é a lembrança viva dela: não
poderia
me separar. Falo com ele, imitando, assim, seu trinado, o seu canto, e ele me
responde.
Eu não sei o que lhe digo; mas ele, se me responde, é sinal que capta qualquer
sentido
nos sons que lhe faço.
Tal como nós, meus amigos, quando acreditamos que a
natureza
nos fala com a poesia de suas flores, ou com as estrelas do céu, enquanto a
natureza
talvez nem perceba nossa existência!
Primeiro juiz : Siga, siga, meu caro, com esta filosofia, e verá como acabará
bem!
Ouvem-se batidas na porta, vê-se a cabeça de Marranca, sinalizando querer
entrar.
Marranca : Posso entrar?
D'Andrea : Entre, Marranca!
Marranca : Em casa, ele não estava, senhor juiz. Ordenei a uma de suas filhas
que,
ao chegar, o mandem pra cá. Mas, veio comigo a menorzinha delas: Rosinella. Se
vossa
senhoria quiser recebê-la...
D'Andrea : Mas não: eu quero falar com ele!
Marranca : Disse que deseja lhe fazer não sei que pedido, senhor juiz. Está toda
apavorada.
Primeiro juiz : E nós nos vamos indo. Até mais ver, D’Andrea!
Trocam felicitações. Os três juízes saem.
D'Andrea : Então, faça-a entrar!
Marranca : Imediatamente, senhor juiz.
Sai Marranca.
Rosinella, dezesseis anos, pobremente vestida, mas com certa
decência.
Vê-se seu rosto cruzando a soleira da porta. Usa um xale negro de lã.
Rosinella : Com licença?
D'Andrea : Entre, entre!
Rosinella : Serva de vossa senhoria. Ah, Jesus meu, senhor Juiz, vossa senhoria
mandou chamar meu pai? Por quê?
Este susto nos tirou todo o sangue das veias!
D'Andrea : Se acalme! De que te assustas!
Rosinella : É que nós, excelência, nunca tivemos nada a tratar com a Justiça!
D'Andrea : A Justiça os apavora tanto assim?
Rosinella : Sim, senhor. E lhe digo:
não temos mais sangue nas veias! A gente má,
excelência, tem assuntos a tratar com a Justiça.
Nós somos quatro pobres
desgraçados.
Se até a Justiça agora se volta contra nós...
D'Andrea : Mas não. Quem lhe disse uma coisa dessas? Fique tranqüila. A justiça
não está contra vocês.
Rosinella : E por que então vossa senhoria mandou chamar meu pai?
D'Andrea : Seu pai é que quer ficar contra a Justiça.
Rosinella : Meu pai? Que diz?!
D'Andrea : Não se assuste. Veja que eu mesmo rio... Mas como?
Não sabe que seu
pai se meteu numa querela com o filho do prefeito e do assessor Fazio?
Rosinella : Meu pai? Não, senhor! Não sabemos de nada. Meu pai está numa
querela?
D'Andrea : Aqui estão os autos!
Rosinella : Meu Deus! Meu Deus! Não lhe dê atenção, senhor Juiz! Há mais de
um mês, está como louco, meu pai! Não trabalha há mais de um ano, entende? Por
que
o expulsaram, o jogaram no meio da rua; fustigado por todos, fugindo de todos
como
um pestilento! Ah, ele quer brigar?
Com o filho do prefeito? Está louco, está
louco! É
esta guerra infame que todos lhe fazem, com esta fama que lhe deram, que lhe
tolheu o
cérebro!
Por favor, senhor juiz: faça ele retirar esta queixa! Faça-o parar!
D'Andrea : Mas sim, minha cara! Quero exatamente isso. E lhe fiz chamarem por
isso! Espero que consiga.
Mas você sabe: é muito mais fácil fazer o mal que o
bem.
Rosinella : Como, excelência?! Mesmo para vossa senhoria?
D'Andrea : Mesmo para mim. Porque o mal, minha cara, se pode fazer a todos e por
todos. Mas o bem, só àqueles que precisam.
Rosinella : E o senhor não acredita que meu pai precise?
D'Andrea : Acredito, acredito.
Mas é que fazer o bem, minha filha, deixa sempre
ressentidos aqueles que queremos beneficiar, e o benefício torna-se dificílimo.
Entende?
Rosinella : Não, senhor, não entendo. Mas faça de tudo, vossa senhoria! Para nós
não existe mais o bem nesta cidade, não temos sossego.
D'Andrea : Mas vocês não poderiam ir embora desta cidade?
Rosinella : E ir pra onde? Ah, vossa senhoria não sabe como é! A carregamos
conosco, esta fama, onde quer que vamos.
Não se arranca nem com uma faca. Ah, se
visse o meu pai, como mudou. Deixou crescer a barba, um barbarrão que parece uma
coruja...
Costurou para si um traje, excelência, que quando vestir, assustará a
gente,
fazendo fugir até os cães!
D'Andrea : Mas por quê?
Rosinella : Só ele sabe por quê! Mas lhe aviso: está enlouquecido! Faça ele
retirar
a queixa, pelo amor de Deus!
Ouve-se baterem na porta.
D'Andrea : Quem é? Entre!
Marranca : (tremendo, entrando no gabinete) Ei-lo, senhor Juiz! O que... O que
devo fazer?
Rosinella : Meu pai?
Rosinella fica de pé, assustada.
Rosinella : Meu Deus! Não deixe ele me ver aqui, excelência, por favor!
D'Andrea : Por quê? O que é? Ele te come viva, se te vê aqui?
Rosinella : Não, senhor. Mas não quer que saiamos de casa. Onde me escondo?
D'Andrea : Aqui. Não tenha medo.
D’Andrea abre a saída oculta na parede esquerda.
D'Andrea : Saia por aqui! Siga pelo corredor adiante e encontrará a saída.
Rosinella : Sim, senhor. Obrigada. Meus cumprimentos a vossa senhoria. Sou sua
serva.
Sai pela portinhola.
D’Andrea fecha a portinhola.
D'Andrea : (para Marranca) Faça-o entrar!
Marranca : (abrindo ao máximo a porta, mantendo-se afastado, com medo) Em
frente, em frente... Pode entrar...
Entra Rosario Chiàrchiaro. Tem uma cara de maldito que é um espanto aos olhos.
Deixou crescer sobre as bochechas amareladas uma barba encrespada e cheia.
Sobre
o
nariz um óculos com armação feita de osso que lhe assemelha a uma coruja.
Veste um
traje lustrado, cor de rato, que lhe aperta por todos os lados, e uma bengala
com alça
de chifre na mão.
Entra em passos de marcha-fúnebre, golpeando o chão com a
bengala a cada passo, e pára defronte o juiz.
D'Andrea : (com uma explosão violenta de irritação) Ah, faça-me o favor! Que
história é essa? Se envergonhe, homem!
Chiàrchiaro : (sem intimidar-se
minimamente à explosão do juiz, arreganha os
dentes amarelados e diz baixo) O senhor, então, não acredita?
D'Andrea : Lhe pedi que me fizesse o favor. Não façamos mais brincadeiras, caro
Chiàrchiaro! Sente-se, sente-se aqui!
D’Andrea se aproxima, fazendo um movimento de colocar a mão no ombro de
Chiàrchiaro, para induzi-lo a sentar-se.
Chiàrchiaro : (num segundo, esquivando-se, num frêmito) Não se aproxime! Olhe
lá! Quer perder a vista dos olhos?
D'Andrea : (olhando-o friamente) Enfim... Como lhe for mais cômodo... Mandei
chamá-lo pelo seu bem. Ali tem uma cadeira: sente-se!
Chiàrchiaro pega a cadeira, senta-se, olha o juiz.
Com as mãos, roda a bengala
sobre
as pernas, como um rolo de macarrão, balançando a cabeça por um tempo.
Ao final,
resmunga.
Chiàrchiaro : Pelo meu bem? Pelo meu bem, o senhor disse? Tem coragem de
dizer “pelo seu bem”!
E o senhor se imagina fazendo o meu bem, senhor juiz,
dizendo
que não crê na maldição?
D'Andrea : (sentando-se) Quer que eu lhe diga que creio? Lhe direi que creio!
Está
bem?
Chiàrchiaro : (sério, com tom de quem não está para brincadeiras) Não, senhor!
O senhor tem motivos para acreditar de verdade.
De ver-da-de! Não só, mas deve
demonstrá-lo, instruindo o processo!
D'Andrea : Ah, olhe: isto será um pouco difícil!
Chiàrchiaro : (levanta-se, intentando sair) Então me vou!
D'Andrea : Ei, basta! Sente-se! Mandei parar com esta história!
Chiàrchiaro : Eu, com história? Não me provoque; ou terá uma experiência
pavorosa... Veja lá! Veja lá!
D'Andrea : Ora, pois eu não vejo nada!
Chiàrchiaro : Veja bem, que estou lhe avisando! Sou terrível, sabia?
D'Andrea : (severo) Basta, Chiàrchiaro! Não me esgote. Sente-se e tratemos de
nos
entender.
O chamei para mostrar que o caminho que você tomou não é propriamente
aquele que vai conduzi-lo a bom porto.
Chiàrchiaro : Senhor Juiz, eu estou contra a parede, num beco sem saída. Mas de
que porto, de que caminho está falando?
D'Andrea : Deste pelo qual lhe vejo
trilhando e daquele lá, da ação que está
movendo. Já um e outro, me desculpe, são entre eles assim...
D’Andrea opõe os dois dedos indicadores, para mostrar que os dois caminhos são
incompatíveis.
Chiàrchiaro : Não, senhor. São apenas para o senhor, juiz!
D'Andrea : Como não? Aqui no processo, acusa dois homens de difamação por que
crêem-no pé-frio, mas quer que eu, justo eu, acredite na sua maldição ou coisa
parecida!
Chiàrchiaro : Sim, senhor. Perfeitamente.
D'Andrea : E não parece também ao senhor que temos aí uma contradição?
Chiàrchiaro : Me parece, senhor juiz, uma outra coisa. Que o senhor não entende
nada!
D'Andrea : Diga, diga, caro Chiàrchiaro! Talvez seja uma verdade sacrossanta, o
que tem a dizer.
Mas tenha a bondade de explicar-me, por que não entendo nada
mesmo.
Chiàrchiaro : Lhe explico num segundo. Não só o farei ver que o senhor não
entende nada, mas ainda ver pra crer que o senhor é meu inimigo.
D'Andrea : Eu?
Chiàrchiaro : O senhor, o senhor mesmo. Me diga uma coisa: sabe ou não sabe
que o filho do prefeito contratou para defendê-lo o advogado Lorecchio?
D'Andrea : Sei.
Chiàrchiaro : E sabe que eu, eu, Rosario Chiàrchiaro, eu mesmo, em pessoa, fui
ao advogado Lorecchio dar-lhe todas as provas do fato: isto é, que eu não só
estava
ciente há mais de um ano, que todos, vendo-me passar, faziam o benz’a deus e
outros
esconjuros mais ou menos discretos.
Mas também as provas, senhor Juiz, provas
documentais, testemunhos irrefutáveis, entende?
Irrefutáveis por causa dos fatos
assustadores, sobre os quais se edificou inabalável, inabalável, a minha fama de
pé-frio?
D'Andrea : Você? Como? Você forneceu as provas ao advogado do adversário?
Chiàrchiaro : A Lorecchio. Sim, senhor.
D'Andrea : Bem... Confesso que entendo ainda menos.
Chiàrchiaro : Menos? Ora, o senhor não entende absolutamente nada!
D'Andrea : Desculpe... Foi levar estas provas que lhe comprometem ao advogado
adversário. Por quê?
Para tornar ainda mais certa a absolvição daqueles dois?
Mas então
por que move o processo contra ambos?
Chiàrchiaro : Mas esta pergunta é a
prova, senhor juiz, de que o senhor não
entende mesmo nada!
Eu entrei com este processo porque quero o reconhecimento
oficial do meu poder. Ainda não entende?
Quero que seja oficialmente reconhecido
este
meu poder terrível, que é agora meu único patrimônio, senhor juiz!
D'Andrea : (comovido) Ah, pobre Chiàrchiaro, meu pobre Chiàrchiaro, agora
entendo! Belo patrimônio, pobre Chiàrchiaro! E o que fazer com ele?
Chiàrchiaro : O que fazer? Como “o que fazer”?
O senhor, caro juiz, para exercer
esta profissão de juiz, ainda que tão mal, a exerça, não teve que ser diplomado?
D'Andrea : Bem, sim, diplomado...
Chiàrchiaro : Então! Quero também um diploma, um atestado: a patente de
azarento e pé-frio. Com selo e carimbo. Chancela legal.
Pé-frio notoriamente
reconhecido em régio tribunal!
D'Andrea : E depois? O que fará?
Chiàrchiaro : Que farei? Mas o senhor é mesmo lento, hein? Colocarei no meu
cartão de visitas! Ah, e lhe parece pouco?
A minha patente! A minha patente!
Será
doravante a minha profissão!
Eu fui arruinado, senhor juiz! Sou um pobre pai de
família. Trabalhava honestamente.
Me botaram pra fora e me jogaram no meio da
rua,
por causa desta fama de pé-frio!
Na rua da amargura, com uma esposa paralítica,
há três
anos entrevada no leito! E com duas moças, que se o senhor as visse, senhor juiz,
lhe
arrancaria o coração a pena que dão. Bonitinhas as duas, mas ninguém vai querer
desposá-las, porque são minhas filhas, entende?
Sabe de que vivemos agora os
quatro?
Do pão que deveria encher a barriga do meu outro filho, que tem a sua própria
família,
três meninos!
E lhe parece que meu pobre filho agüentará por quanto tempo este
sacrifício por mim?
Senhor juiz, não me resta outra alternativa que exercer a
profissão
de pé-frio.
D'Andrea : Mas o que ganhará com isso?
Chiàrchiaro : O que ganharei? Ora, lhe explico. Mas, repare: me cai bem este
traje. Faço tremer! Esta barba... Estes óculos... É só o senhor me fazer a graça
de bater o
martelo, que entro em campo! O senhor pergunta como? Se ainda me pergunta,
repito, é
porque é meu inimigo declarado!
D'Andrea : Eu? Mas pareço seu inimigo?
Chiàrchiaro : Sim senhor, o senhor! Porque teima em não acreditar em meus
poderes! Mas por sorte acreditam os outros, sabe? Todos acreditam.
Esta é a
minha
fortuna! Existem tantas casas de jogo nesta cidade! Bastará que eu me apresente.
Não
será preciso dizer nada.
O gerente da casa, os jogadores, me pagarão para não
ter-me
por perto, e fazendo-me ir embora!
Vou zumbir como uma mosca ao redor de cada
fábrica; vou me fixar ora frente uma loja, ora frente outra.
Ali tem uma
joalheria? Em
frente à vitrine daquela joalheria fico plantado. (Representando) Me ponho a
encarar a
gente assim. (Representando) E quem acha que entraria na loja para comprar uma
jóia,
ou mesmo olhar a vitrine? Virá fora o patrão e me colocará nas mãos três, cinco
liras para que eu me coloque de sentinela defronte à loja de seu rival. Entende?
Será uma
espécie de taxa que eu passarei a cobrar.
D'Andrea : A Taxa da Ignorância!
Chiàrchiaro : Da ignorância? Mas não, meu caro! A Taxa da Saúde!
Porque
acumulei tanta bile e tanto ódio, eu, contra toda esta asquerosa humanidade, que
creio
realmente, senhor juiz, ter comigo o poder de fazer ruir uma cidade inteira!
Percebe!
Percebe por Deus! Não vê? O senhor parece uma estátua de sal!
D’Andrea é tomado de uma profunda piedade, atônito, a mirá-lo.
Chiàrchiaro : Mexa-se! E se ponha a instruir este processo que fará história, de
modo que os dois acusados estarão livres pela inexistência de delito.
Isto
significará
para mim o reconhecimento oficial de minha profissão de pé-frio!
D'Andrea : (levantando-se) A sua patente?
Chiàrchiaro : (em pose grotesca, batendo a bengala) A minha patente, sim,
senhor!
Mal termina de falar, a janela se abre com o vento, fazendo tombar a
coluna,
derrubando a gaiola com o pintassilgo.
D'Andrea : (gritando, acorrendo) Ah, meu Deus! O pintassilgo! O pintassilgo! Ah,
meu Deus!
Está morto... morto... A única lembrança de minha mãezinha... Morto...
Morto...
Com os gritos, entram apressados os três juízes e Marranca, que ficam
pálidos
ao verem Chiàrchiaro.
Todos : Mas o que houve?
D'Andrea : O vento... A janela... O passarinho...
Chiàrchiaro : (com um grito de triunfo) Mas que vento?! Que janela?! Fui eu!
Não queria acreditar e lhe dei a prova! Eu! Eu! E como morreu o passarinho...
Subitamente, aos temores dos presentes, que tentam se afastar.
Chiàrchiaro : ... Assim, um a um, morrerão todos vocês!
Todos : (protestando, suplicando, rogando em coro) Pela sua alma! Segure a
língua!
Deus, nos ajude! Sou um pai de família!
Chiàrchiaro : (alto, estendendo a mão) E então aqui, depressa, paguem a taxa!
Todos!
Os três Juízes : (tirando dinheiro do bolso) Sim, depressa! Aqui está! Mas vá!
Pela graça de Deus!
Exultante, para o juiz D’Andrea, com a mão estendida.
Chiàrchiaro : Viu? E ainda não tenho
a minha patente! Instrua o processo! Estou
rico! Rico!